Fernando Barreto
Escrever é uma fuga à um mundo paralelo onde o NADA existe
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Sapecada
Estávamos em quatro naquele preguiçoso fim de tarde de verão: meu irmão Ígor, Madalozzo, Coxinha e eu.
Era um fim de tarde típico de verão. O sol parecia não querer deixar a noite chegar e havia uma leve brisa soprando que aliviava o calor.
Tínhamos decidido ir até a margem do rio Barreirinho para fazer uma sapecada de pinhão, além de catar alguns para trazer conosco para assar no fogão de lenha na cozinha.
Fui com meu irmão pegar dois cavalos para facilitar nossa jornada e estávamos terminando de encilhá-los quando ouvimos gritos vindos da estrada.
- Ahow... Ahow... Que havers por aí?
Eram o Tocha e o Pedroso que tinham resolvido aparecer de surpresa para passar o fim de semana conosco.
Com a chegada deles acabamos por desistir de ir à cavalo, pois somente havia dois e dois para seis não ia rolar nunca.
Os piás se animaram com a ideia e mostraram o que tinham na mochila que carregavam: Cigarros e bebida, muito dos dois e um pouco de comida.
Desta forma, partimos para nossa aventura andando à pé mesmo mas isso não foi um problema uma vez que todos encaramos aquilo como mais um desafio à nossa juventude febril, como tantos outros que já havíamos feito na fazenda.
Eram 17:30 quando demos início à nossa caminhada passando pela mangueira e seguindo pelo carreiro do gado. Este carreiro era acompanhado por cercas de arame farpado que servia para demarcar piquetes.
Estávamos nos aproximando do tanque quando resolvi sugerir a eles que fossemos pelo meio da mata, afinal, uma aventura tinha que ser uma aventura e nenhuma poderia ser intensa e divertida sem obstáculos.
Todos concordaram e assim passamos por um colchete e entramos em outro piquete onde meu avô costumava plantar milho, mas que estava naquele dia somente com os tocos, pois a colheita fora feita dias antes.
Chegamos onde uma frondosa mimoseira solitária se elevava aos céus cheia de frutos suculentos. Pegamos algumas e continuamos caminhando. Alguns metros à frente a mata cerrada se avolumava.
Todo o caminho até aquele ponto era em declive até que se chegasse na beira de um pequeno córrego que desaguava no leito do tanque bem mais à frente e à direita.
No condizente à nossa tarefa, tínhamos de iniciar a parte mais dura da caminhada. Um aclive bastante íngreme e sinuoso que acompanhava um carreiro ladeado por árvores centenárias.
Aquela mata era, segundo meu avô, um legado que ele deixaria para as futuras gerações, alguns alqueires de mata virgem dedicada à preservação.
Tomando todo o cuidado necessário para não depredar nada, iniciamos a subida. Era possível perceber olhando-se para cima entre frestas nos galhos mais altos que finalmente o sol havia resolvido ir embora.
Isso nos deixou um pouco apreensivos. Ainda tínhamos um longo caminho pela frente de modo que eu disse aos demais que deveríamos nos apressar.
Ah! Ainda me lembro de quando atingimos o final da mata e pudemos visualizar a paisagem da campina à nossa frente. Ainda faltavam cerca de 500 metros até o topo do morro que era o local mais alto de toda a fazenda e que eu chamava de morro dos ventos uivantes porque lá em cima o vento realmente uivava.
Concluímos a etapa de subida chegando ao topo e pudemos admirar uma vista maravilhosa. Olhando-se para qualquer lado era possível ver longe.
Eu estava um pouco perdido em pensamentos, coisa que sempre me acontecia quando ia até o topo do morro, quando o Tocha me questionou.
- E aí cara! Onde é que tá o tal do pinhão?
Eu vi que o Ígor deu uma risadinha irônica e abafada e respondi, apontando uma entrada bem abaixo de onde estávamos. Calculo que a descida deveria ter em torno de uns dois quilômetros até que se chegasse ao pinhal onde eu estava pretendendo ir.
- É lá!
- Porra cara! Porque você não disse que o troço ficava tão longe? Puta que pariu!
Todos rimos de sua atitude. Até ele riu.
O Tocha era foda, zoava com tudo, mesmo quando falava sério. E a gente nunca sabia se ele estava falando sério ou não.
Estávamos sentados próximo à uma guarita que era utilizada para dar sal mineral para o gado e estava muito bom. Eu já estava até planejando acender uma pequena fogueira ali mesmo, como uma vez fizemos o Coxinha e eu naquele mesmo local quando meu irmão disse que estava ficando tarde e que logo a vó iria começar a se preocupar.
Eu me levantei e perguntei:
- E aí, alguém ainda quer descer lá pegar pinhão?
A resposta deles foi simples. Se levantaram e começar a refazer o caminho da ida. Aquilo representava que não iríamos pegar pinhão naquele dia.
Então, juntei minhas coisas e corri atrás deles.
Quando chegamos próximo à mata notei que o Ígor estava olhando meio intrigado e perguntei o que havia.
- Nada não, só acho que seria melhor irmos pela estrada.
Ao que eu disse:
- Que nada! Vamos pelo mato mesmo, vai ser mais rápido e mais divertido. - Normalmente ninguém discutia comigo quando estávamos na fazenda. E eu adorava aquilo.
Desta forma, entramos na mata novamente. Agora para voltar embora. Antes de entrar, eu me certifiquei de que a bússola na minha faca estava funcionando corretamente e qual a direção deveríamos seguir sempre para não nos perdermos na mata.
Foi incrível. Entramos na mata e a luz do dia se esvaiu completamente. Ficamos em um breu total e era possível apenas visualizar os contornos dos corpos uns dos outros.
Tínhamos uma lanterna apenas e nem bem podia ser chamada assim. Ela iluminava apenas razoavelmente bem à frente e nada mais.
Em um momento eu até pensei em voltar atrás e seguir pela estrada como o Ígor tinha falado, mas jamais eu iria dar o braço à torcer. Não principalmente por afirmar incontáveis vezes que conhecia toda aquela terra como a palma da minha mão.
Nós caminhávamos alguns metros e parávamos para que eu pudesse me certificar de que o caminho estava correto, segundo a bússola e poder fumar um cigarro tranquilamente.
A escuridão era impressionante. Sempre que parávamos eu desligava a lanterna para economizar as pilhas e era sempre a mesma escuridão. Não era possível enxergar nada à frente.
Ainda nas paradas era possível sentir um clima de tensão no ar. Estávamos todos apreensivos e não víamos a hora de sair da mata e poder chegar em casa para tomar um gole e curtir a noite.
Fomos fazendo desta forma até que em uma das paradas meu irmão, o Madalozzo e o Pedroso simplesmente não pararam e sumiram em nossa frente.
Coxinha, Tocha e eu continuamos no nosso passo. Tínhamos a lanterna e a bússola e provavelmente os piás estariam mais à frente escondidos para nos assustar.
Já fazia algum tempo que não parávamos e eu já nem queria tanto parar, pois estava ficando preocupado com os piás mas tive que parar. Estava nervoso demais e precisava de um cigarro.
Quando acendi meu cigarro vi que o Tocha ficava olhando para o lado e perguntei:
- Que foi cara?
- Isso aqui tá parecendo a Bruxa de Blair. Daqui a pouco vamos achar uma casinha aí no meio do mato.
O Coxinha e eu rimos. Mas foi um riso nervoso.
Então eu vi uma coisa que me deixou realmente assustado. Acendi a lanterna e apontei para o chão na base de uma árvore. Uma bituca de cigarro estava jogada ali.
Os outros dois me perguntaram o que era e eu disse:
- Cara! Acho que a gente tá andando em círculos.
Apontei a lanterna para eles e vi que eles se olharam e vi também um certo medo em seus olhos.
O Coxinha se aproximou de mim e perguntou como estava a bússola e eu apontei a lanterna nela e lhe mostrei. Ela apontava para sudeste que era o caminho para onde devíamos seguir.
Estávamos ali parados, meio pasmos ainda quando ouvimos gritos.
- Ahow!
- Eia!
- Perdido!
Eram os piás e pelo visto estavam perdidos. Gritei de volta:
- Continuem gritando que nós já achamos vocês.
Eles continuaram gritando e nós saímos em disparada tateando no escuro tentando seguir os gritos.
Com a fraca luz da lanterna pude ver duas árvores que pareciam gêmeas e o carreiro passava entre elas. Falei para os outros que esperassem eu passar e passassem um a um para evitar acidentes.
Eu passei e logo depois de mim o Coxinha passou. Quando foi a vez do Tocha passar, uma coisa gigantesca bateu assas sob ele e alçou voo para cima das árvores. O Tocha com o susto saltou para frente, atingindo o Coxinha que por sua vez me atingiu. Caímos os três para frente. Nos levantamos rapidamente e ficamos um tempo nos olhando feito bobos. A coisa que bateu assas simplesmente havia sumido.
Nesse interim, os gritos haviam ficado mais próximos. Eu ainda estava caminhando meio de costas para me certificar de que o que quer que tenha atacado o Tocha não estava atrás de nós que tropecei e caí batendo minha cabeça em uma raiz.
Quando apontei a lanterna para ver no que tinha tropeçado vi que era a perna do meu irmão e que ele e os outros estavam rindo à toa do meu tombo.
Enfim, novamente estávamos os seis reunidos. Cada grupo contou suas aventuras na escuridão e da parte deles, a mais engraçada foi a do Madalozzo usando um isqueiro para tentar enxergar e tacando fogo na blusa de feltro que meu irmão usava. Ela estava toda chamuscada.
Recomeçamos a caminhada em busca da saída. Estávamos todos já cansados e levemente irritados pelo tempo em vão que estávamos desperdiçando.
Eu estava seguindo em frente, me orientando pela bússola quando senti duas mãos pesadas me agarrando pelos ombros e um xingo estridente do meu irmão:
- Porra cara! Toma cuidado, quase que você se mata!
Quando olhei para frente vi uma cerca de arama farpado cruzando um grande buraco. Se os piás não tivessem me segurado eu teria ficado pendurado pelo pescoço na cerca.
- Isso é novidade! Porque o vô iria colocar uma cerca de arame no meio de um buraco? – Perguntei ao Ígor e ele somente deu de ombros.
Já recuperados do susto, reiniciamos a caminhada. Eu estava me perguntando o porquê de não termos atingido o córrego ainda se o caminho já até tinha se tornado uma leve subida e o porquê daquela cerca ali no meio do nada, isso sem contar que era somente um pedaço de cerca, nem cerca inteira era. Marquei na cabeça para perguntar ao vô depois, mas é claro que esqueci disso.
Em meio à devaneios e silêncio olhei para frente e vi uma certa claridade no meio da mata. Eu gritei para os demais:
- Piazada, estamos salvos! Olha lá, uma luz! O mato acabou, estamos em casa!
Senti que os outros respiraram aliviados atrás de mim e corri em direção à luz.
Como eu fui o primeiro a sair da mata, fui também o primeiro a estacar com perplexidade. Os outros, um a um foram se achegando e batendo em mim. O Coxinha perguntou:
- Que foi cara?
E eu apenas apontei para o que estava olhando.
Nós havíamos saído da mata no mesmo lugar onde havíamos entrado para ir embora.
Meu corpo não aguentou aquele baque e eu simplesmente desabei no chão e meu irmão me olhou bem sério e disse:
- Eu falei pra gente ir pela estrada!
Isso me desarmou e eu ri com estridência. Todos me acompanharam no riso. Pedi um cigarro ao Coxinha e fumei todo ele antes de dizer:
- Bem, que aventura! Vamos pela estrada agora!
Foi assim que voltamos para casa. Caminhando pela estrada limpa e segura, mas eu ainda estava encucado para saber como tudo aquilo tinha acontecido.
Enfim chegamos em casa e o Tocha foi preparar um dos seus famosos drinks Atômico, que consistia em muita vodca, muito açúcar e um pouco de suco.
Olhei no relógio da sala e vi que passava das onze da noite. Fiz alguns cálculos básicos e percebi que havíamos passado cerca de cinco horas no meio do mato.
Mesmo assim, aquela foi uma das melhores aventuras que tivemos e como eu gostaria hoje de poder repeti-la.
Fernando Barreto
Enviado por Fernando Barreto em 14/04/2017
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