Fernando Barreto
Escrever é uma fuga à um mundo paralelo onde o NADA existe
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Kaolin e o Monstro
I

Kaolin, uma jovem curumim, recebeu de sua mãe a incumbência de procurar por penas coloridas para fazer cocares para a festa da colheita que ocorreria em alguns dias. Saiu sorridente e contente por poder participar diretamente dos preparativos da festa.
Quando adentrou a mata ouviu passos seguidos de risadinhas e não se surpreendeu ao ver que eram sua irmã Tainaçã e seu irmão Kurumí que a haviam seguido até ali, esgueirando-se para se esconder.
Quando eles perceberam que haviam sido descobertos, fizeram as tradicionais carinhas de carência e perguntaram juntos:
– Podemos ir com você?
Kaolin olhou para os dois, pensou um pouco e finalmente foi persuadida pelas expressões dos menores.
– Podem vir, mas não se afastem de mim em nenhum momento. – Disse ela.
Desta forma foram-se os três, os dois menores de mãos dadas, saltitando e cantarolando mata adentro em busca das penas.
Logo mais adiante, Kurumí soltou a mão da irmã e saiu correndo por um carreiro. Kaolin seguiu-o ralhando com ele por ter se desgarrado do grupo, mas o menino não ligava, corria e gritava e quando parou se abaixou e rapidamente se levantou com o braço direito erguido em sinal de vitória. Quando Kaolin e Tainaçã chegaram, entenderam o motivo da correria e da felicidade estampada em seu semblante. Em sua mão, Kurumí segurava uma pena, mas não uma pena qualquer e sim de um faisão, multicolorida e que refletia os raios do sol que passavam pelas árvores. Kaolin deu-lhe tapinhas em sua cabeça em sinal de agradecimento e recomeçaram a caçada.
Dois bocós já estavam tão cheios de penas que transbordavam, mas Kaolin não estava satisfeita ainda. Ela sabia que seriam necessárias muitas penas para a confecção dos cocares, afinal seriam muitos.
Após mais algum tempo de caminhada, Kaolin parou para ver onde estava o sol, pois a luz estava ficando mais escassa, e viu que ele já havia baixado bastante no horizonte.
– Está anoitecendo, vamos embora. Já temos penas suficientes para a festa. – Chamou os irmãos que não responderam.
Assustada, ela esquadrinhou com os olhos o local onde estava e não viu nenhum sinal dos irmãos. Entrando em desespero, ela vasculhou o chão em busca de pegadas.
Sua agonia somente aumentava quando se deparou com marcas de arrasto, quatro delas seguindo paralelamente mata adentro em direção a um espinheiro, indicando que os dois pequenos haviam sido capturados.
Kaolin largou os bocós cheios de penas no chão e se pôs a correr gritando os nomes dos irmãos.

II

Ela correu incessantemente sem se preocupar com os espinhos que lhe arranhavam o rosto parando repentinamente quando se apercebeu estar em uma clareira na qual nunca antes havia estado.
A paisagem ali era lúgubre e exalava um cheiro acre no ar tornando a respiração difícil. A maioria das árvores estava morta, várias raízes se avolumavam apontando para o céu como as lanças dos guerreiros da tribo quando em guerra.
A jovem curumim viu-se parada bem no meio daquela cena grotesca e viu mais, logo à frente, presas entre raízes que formavam uma cela, estavam seus irmãos desacordados.
Kaolin estava para ir em direção aos irmãos quando ouviu uma voz soturna vindo de um emaranhado de espinhos negros:
– NÃO! – Gritou a voz. – NÃO OUSE DAR MAIS NENHUM PASSO. ELES ESTÃO PERDIDOS PARA VOCÊ NESTE MOMENTO, MAS EU POSSO LIBERTÁ-LOS SE VOCÊ QUISER OUVIR MINHAS EXIGÊNCIAS.
Kaolin apertou os olhos na direção de onde a voz tenebrosa vinha e percebeu dois pontos amarelos olhando para ela. Ela instintivamente levou a mão ao cinto tocando de leve o cabo da faca que carregava.
– OUÇA-ME CRIANÇA E NÃO SEJA TOLA DE QUERER ENFRENTAR-ME SOZINHA. – Disse a criatura oculta.
Kaolin sentiu suas pernas fraquejarem, mas vendo os irmãos pequenos tão indefesos logo à sua frente encheu-se de coragem e disse:
– Eu irei ouvir, mas deve antes se apresentar, pois eu sou Kaolin filha de Acauã e não me curvo a ninguém.
Os olhos amarelos se arregalaram ante a fibra da jovem e então com um movimento súbito que fez as folhagens secas farfalharem e os espinheiros se abrirem e de seu meio surgiu uma criatura horrenda. Kaolin viu que os olhos amarelos tenebrosos que havia visto antes não eram nada perto da aparência total do monstro. A pele vermelha como brasa, os cabelos dourados como os raios do sol e os lábios negros como a noite. Riscos pretos se cruzavam sobre o nariz e outros saíam dos cantos dos olhos e se encontravam nas orelhas. As mãos e pés eram descomunalmente grandes e cheios de garras protuberantes.
O demônio aterrissou do salto bem em frente da menina e se abaixou para ficar no mesmo nível do seu olhar.
– HUM! UMA MENINA CORAJOSA E CHEIA DE FIBRA! EU GOSTO DISSO, GOSTO MUITO. FAZ-ME ANSIAR PELO MOMENTO FUTURO. – Disse o monstro e riu fazendo Kaolin sentir arrepiar os cabelos da nuca.
Após o riso, o monstro continuou, fazendo uma reverência:
– POIS BEM, SE A EXIGÊNCIA DA FILHA DO CACIQUE É ESTA, PERMITA ME APRESENTAR: EU SOU JURUPARI, O DEUS DA ESCURIDÃO E AQUI ESTOU PARA BARGANHAR SUA ALMA JOVEM CURUMIM.
Kaolin percebeu que um terrível acaso a colocara frente a frente com o pior dos deuses Tupis-Guaranis. Jurupari era o deus da escuridão e do mal e se satisfazia agourando os índios em seus sonhos e barganhando quando tinha a oportunidade. Novamente enchendo-se de coragem, a jovem olhou-o nos olhos e disse:
– O que quer você, deus da escuridão, de uma jovem curumim como eu? O que poderia eu fazer para satisfazê-lo?
O demônio se ergueu e em sua voz gutural disse:
– EU DESEJO UM SACRIFÍCIO DE SANGUE. PODE SER O SEU, O QUE ME AGRADARIA IMENSAMENTE OU PODE SER O DOS PEQUENOS QUE ALI JAZEM ADORMECIDOS. A ESCOLHA É SUA. IREI ME RETIRAR PARA QUE POSSA SE DECIDIR. QUANDO ISSO ACONTECER, CHAME MEU NOME E EU VIREI. NÃO TENTE FUGIR NEM LIBERTAR OS PEQUENOS, OS ESPINHOS SÃO VENENOSOS E QUALQUER TENTATIVA DE LIBERTAÇÃO OS LEVARÁ IMEDIATAMENTE À MORTE.
Em um piscar de olhos de Kaolin o mostro desapareceu no ar e a menina se viu sozinha novamente na clareira macabra com os irmãos ainda adormecidos presos às raízes espinhosas.

III

Ela se sentou como pode no chão e se pôs a chorar e orar para Tupã pedindo ajuda na situação horrível em que se encontrava.
Não obtendo nenhuma resposta de Tupã, Kaolin se levantou decidida e chamou pelo monstro:
– JURUPARI!
Atendendo ao chamado, o demônio apareceu e olhando-a nos olhos disse:
– DECIDIU-SE POR FIM?
Ela apenas balançou a cabeça em sinal positivo e sacou a faca do cinto. O demônio riu ao entender a decisão da menina.
– Liberte-os e os coloque em segurança e então terá o meu sangue. – Disse ela com seriedade de adulto.
Jurupari se ergueu e estalou os dedos fazendo com que Tainaçã e Kurumí fossem libertados da prisão de raízes. Ele então estalou novamente os dedos e os dois levitaram como que carregados por uma gigante mão invisível e desapareceram pelo caminho por onde Kaolin havia entrado.
O demônio, com um brilho sepulcral nos olhos, virou-se para Kaolin e disse:
– FAÇA! AGORA!
Kaolin levou a faca ao pescoço e quando ia começar a cortar sentiu um vento surgir do chão formando um redemoinho que amontoava folhas e galhos secos. Do redemoinho um grande lobo guará surgiu uivando e rangendo os dentes atacou o monstro buscando sua garganta.
Jurupari que não esperava aquilo lutou ferozmente, mas suas forças se esvaiam enquanto o lobo dilacerava sua garganta. A luta não durou muito tempo, com as presas abrindo e fechando e dilacerando o que encontravam o grande lobo venceu e Jurupari desapareceu, retornando ao mundo inferior por mais um período de tempo.
O lobo então se virou para Kaolin e disse-lhe:
– Eu sou Guará Puabá e sou seu protetor, seu animal guardião e estarei sempre contigo. Feche os olhos agora, doce criança e eu te levarei em segurança pelo caminho.
Kaolin sentiu lágrimas brotarem de seus olhos, mas os manteve fechados enquanto era transportada em segurança para casa.

IV

Kaolin abriu os olhos e percebeu que estava deitada em sua oca e que seus irmãos dormiam tranquilamente um sono sem sonhos ao seu lado.
Então ela teve uma revelação, tudo pelo que passara havia sido um sonho, à que todos os curumins são submetidos quando atingem a idade do amadurecimento e que tem por objetivo mostrar-lhe o seu animal guardião que lhes protegerá por toda a vida.
Fernando Barreto
Enviado por Fernando Barreto em 15/04/2017
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